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predicativo do sujeito com verbos que não são copulativos
Atente-se na frase seguinte: "Ele trabalhava calado". Segundo Celso Cunha & Lindley Cintra, "calado" desempenha a função sintática de predicativo do sujeito, apesar de ser precedido por um verbo não copulativo. E agora, que função desempenha segundo a nova terminologia linguística?
C. P. , Portugal

A complexidade de fenómenos ou conceitos não é alterada com mudança da terminologia. A estrutura da frase Ele trabalhava calado é raramente analisada ou descrita nas gramáticas de forma clara e inequívoca, uma vez que o predicativo do sujeito aparece quase sempre associado a verbos copulativos. Isto acontecia já antes das alterações terminológicas.

O Dicionário Terminológico não é uma ferramenta exaustiva e não apresenta nenhum termo/conceito que descreva calado na frase Ele trabalhava calado, nomeadamente na entrada predicativo do sujeito, que refere apenas frases com verbos copulativos (ex.: os alunos estão muito interessados), ao contrário do que afirmam Cunha e Cintra (pág. 138), que dizem que não são só os verbos de ligação (isto é, os verbos copulativos) que se constroem com predicativo do sujeito, mas também os verbos significativos (isto é, os que não são nem copulativos nem auxiliares).

Na gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra, parece não haver dúvida em designar este constituinte como "predicativo", mas o que na página 138 é designado por predicativo do sujeito (ex.: Paulo riu despreocupado), é designado na página 160 por predicativo de um predicado verbo-nominal (ex.: a noite vai descendo muda e calma), uma vez que se trata de um predicado misto com dois "núcleos significativos (um verbo e um predicativo)".

Uma vez que não houve nenhuma alteração expressiva à designação de "predicativo do sujeito" (excepto quando se trata de um grupo preposicional ou de um grupo adverbial, que eram tradicionalmente designados por complementos circunstanciais), o conceito operatório de predicativo do sujeito parece ser adequado para estes casos, nomeadamente em contexto escolar, apesar de haver diferenças em relação a um predicativo do sujeito com um verbo copulativo.

A reflexão acima não invalida que este constituinte seja analisado de forma diferente por autores diferentes. Na gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra os autores estabelecem a diferença entre este predicativo e um aposto (cf. pág. 160), sublinhando que os apostos não são adjectivais. Na gramática de Mira Mateus et al., (cf. pág. 368-369), Ana Maria Brito, autora do capítulo 11 - "Categorias Sintácticas", afirma que os apostos podem ser nominais e adjectivais e apresenta um exemplo que poderá enquadrar-se no mesmo paradigma do exemplo de Celso Cunha e Lindley Cintra: O João, todo contente, partiu para os EUA.

Na gramática de Evanildo Bechara (cf. pág. 428-431), o autor refere que este constituinte "tem merecido em muitos autores a classificação de predicativo". Bechara opta, no entanto, pela designação "anexo predicativo", por considerar que este constituinte se distingue do predicativo normal porque (i) é normalmente representado apenas por adjectivos (ex.: Ele estudou atento), (ii) pode ser omitido sem gerar agramaticalidade (ex.: Ele estudou) e (iii) pode ser substituído por um advérbio mas não pelo pronome invariável "o" (ex.: Ele estudou atento = ele estudou assim, ele estudou atentamente. Ele estudou atento ele estudou-o).

Bibliografia:
Celso CUNHA e Lindley CINTRA, Nova Gramática do Português Contemporâneo, Lisboa: Edições Sá da Costa, 1998, pp. 134-138, pp. 159-160.
Evanildo BECHARA, Moderna Gramática Portuguesa, Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2002, pp. 428-431.
Maria Helena Mira MATEUS et al., Gramática da Língua Portuguesa, Lisboa: Caminho, 2003, pp. 368-369.
Ignacio BOSQUE e Violeta DEMONTE, Gramática Descriptiva de la Lengua Española, Madrid: Espasa, 2000, vol. 2, 38.2.

Ver também: predicativo do sujeito, predicativo do complemento directo

Helena Figueira, 29/03/2012

Notas

  1. As respostas são datadas e escritas segundo a ortografia da norma europeia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.
  2. A base do dicionário foi alterada a 1 de Abril de 2009, pelo que as referências em dúvidas anteriores a esta data podem não corresponder ao conteúdo actual.
  3. As respostas sobre questões ortográficas são maioritariamente baseadas na norma ortográfica portuguesa de 1945, contendo as respostas mais recentes indicações sobre a ortografia antes e depois do Acordo Ortográfico de 1990.
  4. A bibliografia utilizada está disponível aqui.