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evacuar com significado de "retirar"

Na entrada evacuar, não haverá erro no exemplo 'a polícia evacuou os residentes do prédio'? É que as pessoas não são evacuadas, os locais é que são evacuados; por isso, não deveria ler-se: 'a polícia evacuou o prédio' (ou seja, os residentes foram retirados do prédio)?
T. C.

O exemplário que o Dicionário Priberam apresenta na entrada evacuar contempla exemplos ilustrativos desse verbo em língua portuguesa, como é o caso da frase a polícia evacuou os residentes do prédio. Esse uso do verbo evacuar como sinónimo de retirar é efectivo em contextos relativos a situações de perigo ou insegurança, conforme se pode verificar em corpora e motores de pesquisa, mas é condenado por alguns autores, para quem o verbo evacuar só pode ser usado como sinónimo de desocupar ou esvaziar nesses contextos, com o argumento de que "são evacuados os espaços e não as pessoas" (cf. Dicionário de dúvidas, dificuldades e subtilezas da Língua Portuguesa, p. 143). A origem de tal argumento não é muito sólida, podendo especular-se que remonta ao étimo latino, já que evacuar deriva do latim evacuare, que significa esvaziar. O que convém não esquecer é que, para além de evacuare também significar limpar, purgar, livrar-se de, pôr de lado, enfraquecer, aniquilar, anular ou cancelar, na sua passagem para e na sua evolução em outras línguas, este verbo foi perdendo alguns significados e ganhando outros, fenómeno habitual na história da língua.

Outro facto que convém lembrar é que o uso de evacuar como sinónimo de retirar não é propriamente novo, com ocorrências em português que datam, pelo menos, desde a primeira metade do século XVIII, como se pode ver pelos exemplos abaixo:

i) "Que se lhes dará o tempo necessário para evacuar as tropas e bagagens; [...]", in Gazeta de Lisboa Occidental, 17-11-1718, pág. 366 [consultado em 14-09-2023].

ii) "[...] para fazer evacuar os defensores dos baluartes, contraguardas, revelins e ramais da estrada encoberta da tenalha batida [...]" in André Ribeiro Coutinho, O capitão de infantaria portuguez, com a theorica, e pratica das suas funções, exercitadas assim nas armadas terrestres, e navaes, como nas praças, e corte, etc., tomo II, Lisboa: Regia Officina Sylviana e Academia Real, 1751, pág. 244 [consultado em 14-09-2023].

Os exemplos i) e ii) são ocorrências do verbo evacuar como sinónimo de retirar, embora destoem do uso mais frequente do verbo à época, que era usado como sinónimo de expelir no domínio da medicina (ex.: evacuar humores, evacuar sangue). Assim se comprova que tal uso há muito está presente na língua portuguesa. A este respeito, é interessante analisar o registo do verbo evacuar em alguns dos primeiros dicionários portugueses, para melhor visualizar a sua evolução na língua.

Em 1713, Raphael Bluteau regista o verbo no seu Vocabulario Portuguez e Latino (1712-1721), obra que se considera ser o primeiro dicionário de língua portuguesa, definindo evacuar apenas na área da medicina como "Despejar" e exemplificando o seu uso através da abonação "Se a sangria se faz a respeitivo de evacuar o sangue", conforme se lê na página 356 do 3.º volume [consultado em 14-09-2023].

Em 1789, cerca de oito décadas mais tarde, a obra de Raphael Bluteau está na base de outra obra lexicográfica de referência na dicionarística portuguesa, o Diccionario da Lingua Portugueza, de António de Morais Silva, que, na sua primeira edição, dá conta de uma extensão do sentido de evacuar através da indicação "Fazer evacuar, v. g. a Praça. ", conforme se lê na página 574 do tomo primeiro [consultado em 14-09-2023]. Ao explicitar que o nome praça pode ser usado como complemento directo do verbo evacuar, Morais dicionariza o uso do verbo além do domínio da medicina, como já vinha acontecendo no uso real da língua.

Em 1881, quase um século depois da extensão de sentido efectuada pelo Dicionário de Morais, o Diccionario Contemporaneo da Lingua Portuguesa, iniciado por Francisco Júlio de Caldas Aulete e concluído por António Lopes dos Santos Valente, vai mais longe na descrição do verbo evacuar, como se pode ler nas páginas 727-728 do 1.º volume [consultado em 14-09-2023]. Os autores do Caldas Aulete, como ficou conhecido este dicionário, reformularam consideravelmente o verbo evacuar e incluíram uma acepção exclusiva do domínio militar, com a indicação "Evacuar tropas, artilharia, etc. [é] transferi-las de um para outro lugar.", dando assim simultaneamente conta dos exemplos i) e ii) acima, já atestados em 1718 e em 1751. Tal acontece porque o Caldas Aulete foi elaborado segundo um plano lexicográfico inovador, com o intuito de "coordenar um dicionário portátil para a maioria das pessoas que falam a língua portuguesa; um vocabulário que represente a língua portuguesa como ela é hodiernamente, contendo as palavras que são do domínio da conversação, de que boa parte se não encontra nos dicionários nacionais; os neologismos sancionados pelo uso e pela necessidade, e os termos técnicos, que, com o desenvolvimento da instrução pública, tem [sic] passado para a literatura e para a linguagem da conversação." (pág. I). Note-se que a inclusão de "palavras do domínio da conversação, de que boa parte se não encontra nos dicionários nacionais" demonstra já o cuidado do Caldas Aulete em registar o dinamismo da língua.

Em 1945, seis décadas após a primeira edição do Caldas Aulete, o Dicionário de Morais incorpora finalmente algumas das alterações deste dicionário em evacuar, como a acepção do domínio militar, comprovando assim que o Dicionário de Caldas Aulete foi um modelo inovador de dicionário para a época.

Com base neste breve resumo da evolução do verbo evacuar em língua portuguesa, não é difícil entender que, para muitos falantes, dos dias de hoje ou de antanho, seja natural extrapolar de frases como "evacuar as tropas" ou "evacuar os defensores dos baluartes" para frases como "A Bélgica e Holanda evacuaram as tribos usurpadoras que se riam, ébrias de gloria satânica, à sombra do estandarte da conquista [...]" (Camilo Castelo Branco, Delitos da Mocidade, 1889, pág. 106), "evacuaram-se os feridos e doentes para Lourenço Marques" (1897) ou até "evacuaram o corpo da igreja" (1869). Para além disso, este uso generalizado de evacuar não é sequer exclusivo do português, encontrando-se dicionarizado também em espanhol, francês, italiano ou inglês. E também em alguns desses idiomas esse uso foi censurado e foi igualmente justificado, como se pode ver, por exemplo, nestas recomendações em espanhol e em inglês [consultadas em 14-09-2023].

A partir do momento em que uma palavra é utilizada de determinada forma por um número elevado de falantes e com larga difusão geográfica, ela passa a ser um facto linguístico e cabe ao utilizador da língua decidir acerca da sua utilização ou não, consoante o seu conhecimento linguístico, a situação em que se encontra e o próprio uso que ele faz da língua. A função de um dicionário passa por uma descrição dos usos da língua, devendo basear-se essencialmente em factos linguísticos e não estabelecer juízos de valor relativamente a eles, antes apresentá-los o mais objectivamente possível. Dada a riqueza da língua, o falante terá sempre a opção de não utilizar determinadas palavras e, se preferir contornar a controvérsia, neste caso específico, poderá substituir este uso controverso do verbo evacuar por outros mais consensuais, como extrair, remover, retirar ou transferir.

Cláudia Pinto, 18/10/2023

Notas:

  1. As respostas são datadas e escritas segundo a ortografia da norma europeia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.
  2. A base do dicionário foi alterada a 1 de Abril de 2009, pelo que as referências em dúvidas anteriores a esta data podem não corresponder ao conteúdo actual. As respostas sobre questões ortográficas são maioritariamente baseadas na norma ortográfica portuguesa de 1945, contendo as respostas mais recentes indicações sobre a ortografia antes e depois do Acordo Ortográfico de 1990.
  3. A bibliografia utilizada está disponível aqui.