[Flexão verbal / Concordâncias]
Quantos erros gramaticais se encontram na frase:
"Tu soubestes muito bem integrares-te no grupo"
Penso que tem dois erros (duas formas verbais). Certo?
E. , Portugal
A construção *tu
soubestes está errada, como indica o asterisco, e resulta da confusão entre
as formas verbais da segunda pessoa do singular, que não têm s final (tu
soubeste) e da segunda pessoa do plural (vós soubestes),
ambas do pretérito perfeito do indicativo. Este é um erro muito frequente, que
resulta do facto de o pretérito perfeito ser o único tempo verbal (se excluirmos
o imperativo) em que a segunda pessoa do singular não tem uma terminação
finalizada por -s (ex.: tu sabes, sabias, saberás,
souberas, saberias, saibas, soubesses, souberes,
saberes). Sobre este assunto, poderá consultar também a resposta à dúvida puseste-a/puseste-la.
A par deste erro, há
também outra situação que pode ser problemática: o uso do infinitivo pessoal ou
flexionado (integrares) numa oração subordinada substantiva completiva
infinitiva com o mesmo sujeito da oração subordinante. Como é dito na resposta à dúvida
infinitivo flexionado, quando na oração subordinada infinitiva há um
sujeito diferente do sujeito da oração principal, é utilizado o infinitivo
pessoal (ex.: tu deixaste [nós] integrarmos novos elementos no grupo).
Quando, porém, o sujeito é o mesmo na oração subordinante e na subordinada, como
na frase em apreço (tu soubeste muito bem [tu] integrares-te no grupo), a
utilização do infinitivo oscila muitas vezes entre o impessoal (ex.: tu
soubeste muito bem integrar-te no grupo) e o pessoal (ex.: tu soubeste
muito bem integrares-te no grupo). Neste contexto (com o mesmo sujeito para
as duas orações), é normalmente considerada como preferencial a escolha do
infinitivo impessoal.
Atendendo ao que foi dito acima, pode considerar-se que a frase *tu soubestes
muito bem integrares-te no grupo contém duas incorrecções.
Bibliografia:
Maria Helena Mira MATEUS et alii, Gramática da Língua Portuguesa, 5ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2003, pp. 439-442, 715-718 e 725.
Evanildo BECHARA, Moderna Gramática Portuguesa, 37.ª ed., Rio de Janeiro: Lucerna, 2002, pp. 284-286 e 431-433.
Celso CUNHA e Lindley CINTRA, Nova Gramática do Português Contemporâneo, 14.ª ed., Lisboa: Edições Sá da Costa, 1998, pp. 601-609.
Ver também: infinitivo em orações adverbiais finais
Helena Figueira, 30/03/2006Notas
- As respostas são datadas e escritas segundo a ortografia da norma europeia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.
- A base do dicionário foi alterada a 1 de Abril de 2009, pelo que as referências em dúvidas anteriores a esta data podem não corresponder ao conteúdo actual.
- As respostas sobre questões ortográficas são maioritariamente baseadas na norma ortográfica portuguesa de 1945, contendo as respostas mais recentes indicações sobre a ortografia antes e depois do Acordo Ortográfico de 1990.
- A bibliografia utilizada está disponível aqui.